Saturday, July 08, 2006

O esteta da simplicidade

Zidane despede-se da carreira, neste domingo, em um gramado berlinense, e o mundo do futebol lhe dispensa uma espécie de referendo sentimental que não poderia ser mais justo prestar.

Zinedine Zidane foi o mais genial esteta da simplicidade de que se tem notícia. Certamente não se poderá esquecer a agradável, a perfeita linguagem futebolística de seu corpo esguio, alto, longilíneo: seria-lhe impossível a malemolência latino-americana, mas o argumento definitivo de sua arte era exatamente essa superior discrição, que foi a viga mestra de sua grandeza como jogador.

Em Zidane, a liturgia do jogo foi enxuta, serena, criteriosa e inigualável. Não lhe agradava o movimento espalhafatoso, a idéia afoita que se remenda aos borbotões, nem a energia despendida em excesso, que a tantos jogadores tão bem recai como uma necessária atitude frente às intempéries do campo.

No craque francês, tudo era jogo, tudo era contundência futebolística: com a serenidade de um ourives, na solidão de um lance, em um ato acrescentava ao jogo sua particular prodigalidade, que quase sempre era a superioridade de um plano bem executado ante a energia da atitude. Fabricava novos espaços, construía toques e acrescentava com eles ao jogo o seu horizonte particular. Surpreendia a incompreensão de uma defesa com um lance inesperado, autêntico, que é a arma pela qual, na caça, os lobos espertos eliminam pela astúcia a pretensão dos mais novos.

Não avançava contra espaços árduos. Os evitava. Na dificuldade mandava, a toques de ponderação, a condução do jogo a outros destinos. Inovava sem sobressaltos. Surpreendia com leveza e sem excessos. A vitória de Zidane nunca fui a de quem confronta e abate com disposição o inimigo. Sua superioridade se dava em voz baixa, mas todos a ouviam.

Não deve ser novidade à consciência cívica francesa a agradável idéia de que pudesse um de seus filhos escrever, em solo germânico, o último capítulo de uma notável história, imagino eu. É o que tentará fazer Zidane neste domingo. Mas há a Itália. E a esquadra “azzurra”, antes de ser um time, é uma sistemática, um modo de proceder. O futebol italiano é a elegia ao método. Não há favoritos.

Uma coisa é certa: o futebol estará menor sem Zidane.

4 Comments:

Blogger Carol Disegna said...

coisa de copa do mundo.
tem gente que erra penalti, tem gente que passa mal, tem os que ficam com raiva.

abracos italianos pra voces!

7:47 AM

 
Blogger Fernando said...

E agora? Uotários no Brasileirão?

9:33 AM

 
Blogger Daniel said...

Não esvaziaria o Uotários original?

6:51 PM

 
Blogger Fernando said...

Também pensei nisso. Então... suicide este blog.

8:17 PM

 

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