O esteta da simplicidade
Zidane despede-se da carreira, neste domingo, em um gramado berlinense, e o mundo do futebol lhe dispensa uma espécie de referendo sentimental que não poderia ser mais justo prestar.
Zinedine Zidane foi o mais genial esteta da simplicidade de que se tem notícia. Certamente não se poderá esquecer a agradável, a perfeita linguagem futebolística de seu corpo esguio, alto, longilíneo: seria-lhe impossível a malemolência latino-americana, mas o argumento definitivo de sua arte era exatamente essa superior discrição, que foi a viga mestra de sua grandeza como jogador.
Em Zidane, a liturgia do jogo foi enxuta, serena, criteriosa e inigualável. Não lhe agradava o movimento espalhafatoso, a idéia afoita que se remenda aos borbotões, nem a energia despendida em excesso, que a tantos jogadores tão bem recai como uma necessária atitude frente às intempéries do campo.
No craque francês, tudo era jogo, tudo era contundência futebolística: com a serenidade de um ourives, na solidão de um lance, em um ato acrescentava ao jogo sua particular prodigalidade, que quase sempre era a superioridade de um plano bem executado ante a energia da atitude. Fabricava novos espaços, construía toques e acrescentava com eles ao jogo o seu horizonte particular. Surpreendia a incompreensão de uma defesa com um lance inesperado, autêntico, que é a arma pela qual, na caça, os lobos espertos eliminam pela astúcia a pretensão dos mais novos.
Não avançava contra espaços árduos. Os evitava. Na dificuldade mandava, a toques de ponderação, a condução do jogo a outros destinos. Inovava sem sobressaltos. Surpreendia com leveza e sem excessos. A vitória de Zidane nunca fui a de quem confronta e abate com disposição o inimigo. Sua superioridade se dava em voz baixa, mas todos a ouviam.
Não deve ser novidade à consciência cívica francesa a agradável idéia de que pudesse um de seus filhos escrever, em solo germânico, o último capítulo de uma notável história, imagino eu. É o que tentará fazer Zidane neste domingo. Mas há a Itália. E a esquadra “azzurra”, antes de ser um time, é uma sistemática, um modo de proceder. O futebol italiano é a elegia ao método. Não há favoritos.
Uma coisa é certa: o futebol estará menor sem Zidane.
